OXÓSSI com / para Denilto Gomes. 1, 2, 3 setembro 2017, Centro Cultural SP

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OXÓSSI
Performance de Dança criada por Eduardo Fukushima à convite de Andrea Thomioka ex curadora do Centro Cultural São Paulo. Abrindo o Semana de Danças 2017 do CCSP.

Uma homenagem dançada para Denilto Gomes, um artista da dança do Brasil , falecido nos anos 90,um poeta do movimento e da escrita, um livre no palco, um místico, criador e pensador. Do balé ao butoh, do candomblé ao budismo, do Brasil profundo ao Japão pós guerra e no entre muitos Deniltos. Essa dança foi inspirada em um pequeno fragmento em vídeo chamado “oxóssi denilto gomes”, postado no youtube por Patrícia Noronha, dançarina, parceira de palco de Denilto na obra Canção da Terra dirigida por Takao Kusuno.

Oxóssi, o Orixá do mato, que carrega em si uma das forças primordiais de nós seres humanos, a luta, a luta pela sobrivência. Um caçador, o mestre de caçar pássaros, um arqueiro de um flecha só, o orixá que acompanha os artistas.
Oxóssi nos une, Denilto!!

Duração: aproximadamente 25 minutos, antes da performance será exibido depoimentos em homenagem a Denilto Gomes.

Ficha técnica:
Criação e Dança: Eduardo Fukushima
Colaboração Artística: Beatriz Sano
Composição musical e operação de som: Tom Monteiro
Música de agradecimento: Querer Cantar de Iara Rennó e Gustavo Galo
Criação de luz e operação: Gabriela Luiza
Figurino: Alex Casimiro
Confecção de Origami: Bruna Sano
Revisão de texto: João Victor Velame
Produção: Carolina Goulart
Flyer: Júlia Rocha
Agradecimentos: Hideki Matsuka, Andréia Nhur e sua tese “Procura-se Denilton Gomes: um caso de desaparecimento no jornalismo cultural”.

Escritos sobre Oxóssi GGN Cultura

                             Um Oxóssi guerreiro [Diálogos com a dança]

                                         por Daniel Gorte-Dalmoro

Tempos como os atuais exigem saídas do script. Atacada por todos os lados, a cultura que ousa se afirmar cultura, na medida em que se recusa enquanto publicidade oficial, precisou começar a trazer explícito o discurso político. Entretanto, não é todo artista, todo grupo que utiliza a política institucional como material criativo, para daí sair algo para ser posto em cena artisticamente. Assim, cabe ao menos, junto com os agradecimento aos patrocinadores, no fim da apresentação, o jargão “Fora Temer”, nem que seja para marcar uma posição de defesa da democracia. Isso para grupos menores. Grupos maiores, consagrados internacionalmente e dependentes de financiamento público (uma vez que o privado se recusa a patrocinar o que não traz bons lucros), se não explicitam o discurso político, acabam por trazê-lo indiretamente, como é o caso do Grupo Corpo, um dos principais (se não o principal) grupo de dança contemporânea do Brasil, reconhecido internacionalmente, que desde 2015 passa o pires atrás de dinheiro, por ter parte do patrocínio da Petrobrás cortado (afinal, diziam que a petroleira estava à beira da falência, com reservas enormes de petróleo a baixo custo de extração).

Em São Paulo, em 2017, a ascensão de um político de extrema-direita, sem qualquer apreço pela convivência democrática e republicana, com um secretário de cultura com iguais valores (e que gosta de brincar de machão (protegido por meia dúzia de guarda-civis, sempre) chamando para o braço quem o critica), pôs poder público e artistas em guerra aberta. E a dança foi um dos grupos mais articulados nessa resistência contra o desmonte da cultura em São Paulo.

Uma das mais recentes cartadas democráticas da gestão Doria-Sturm foi a substituição da curadora de dança do CCSP, sob o argumento de “porque sim, porque eu quis”. E o primeiro gesto da nova curadora, Lara Pinheiro, foi boicotar o artista Eduardo Fukushima da programação – já que o dinheiro pago para construir seu espetáculo já havia sido pago e ficaria feio mandar ele para casa sem apresentar o resultado do investimento público. Fukushima é uma das (muitas) vozes que se levantam contra Doria-Sturm-Lara, dando a cara a tapa, levando o tapa, e devolvendo o tapa à altura.

O espetáculo de Fukushima apresentado dias 1, 2 e 3 no CCSP, Da percepção à memória: Oxóssi com/para Denilto Gomes, possui uma série de discursos, nem todos identificáveis logo de cara. O primeiro deles, por escolha do artista e evidente, é o político. Invertendo a ordem habitual, antes de entrar o palco para dançar, Fukushima subiu à ribalta para falar sua situação, o boicote à sua obra na programação da Semanas de dança do CCSP – pode ter sido uma falha técnica, mas é surpreendente como há demasiadas e sempre pertinentes falhas técnicas quando políticos antidemocráticos tomam o poder -, e da situação calamitosa para a qual a cultura tem sido impelida pela prefeitura de São Paulo, em parceria com o governo do Estado e o governo federal. Preferiu pôr a política à frente de sua obra, um ato ousado numa época em que artistas costumam ter como grande preocupação estar sempre de bem – ousado e marcante, dado sua dificuldade óbvia com a fala. A seguir explicou os pontos de intersecção que via dele com Denilto Gomes – grande expoente da dança contemporânea brasileira nas décadas de 1980 e 90, morto em 94, em decorrência da Aids -, o interesse de ambos pelo inexplicável, pelo oculto. Só então veio a dança, já completamente contaminada pelas palavras – para o bem e para o mal.

Acompanhado de um tsuru em negativo – um tsuru preto -, Oxóssi-Fukushima vem armado de lanças para fazer da caça poesia; do movimento, pausa – e novamente movimento -; do agônico, agonístico. Seu discurso inicial, contudo, transforma o caçador em guerreiro e todo seu solo – que não soa tão solo – um embate, carregado de uma tensão nos gestos e nos tempos – como trazer para o presente um passado não assistido diretamente pelo artista, mas que ainda assim o marca?

É uma dança contida, destoa dos solos a que assisti de Fukushima – talvez porque seja um solo apenas em aparência. A fala inicial de Fukushima contamina os gestos, sua expressão é séria – seja no combate com as lanças, seja na contemplação sob o leque. A homenagem dele a Denilto apresenta a arte como poesia e política, como confronto e beleza. Como Brasil e Japão, e não é nenhum dos dois – Denilto foi um dos primeiros a trazer o butoh para a dança contemporânea, Fukushima tem forte influência oriental (para além de sua ascendência), com estágio no outro ponto do globo.

Fukushima sai, o público aplaude, Fukushima retorna e continua a dança – é agradecimento, mas ainda é parte do espetáculo. Sua expressão agora é leve, seus gestos soam mais soltos e fluidos – mais a cara do que estou acostumado dele. Associo ao título da obra esses dois “atos”: no primeiro, seu solo é, na verdade, um duo, de alguma outra dimensão, Denilto dança com ele; no segundo, um solo seu, sua homenagem particular para Denilto. Em todo o espetáculo, o trazer o invisível para a ribalta, o passado para o presente; a dança em suas muitas possibilidades, o corpo em suas dificuldades – como no discurso inicial – e em toda sua expressividade – inclusive, dançar com os ausentes.”

06 de setembro de 2017

Texto por Patrícia Bergantin sobre sábado dia 2 de setembro de 2017.

OXÓSSI é uma dança de Eduardo Fukushima e vai só até hoje às 18h no CCSP, dentro da programação do Semanas de Dança, Assisti ontem, saí inspirada e escrevi:
Uma enorme fila atravessa o Centro Cultural São Paulo no aguardo para assistir Oxóssi, trabalho em homenagem ao artista Denilto Gomes criado pelo artista convidado Eduardo Fukushima. Mesmo a convite do próprio CCSP pela curadoria anterior, esta mesma fila poderia nunca ter existido, já que o artista não foi divulgado na programação do Semanas da Dança, justamente no mesmo período em que a assessora da Secretaria Municipal de Cultura, Lara Pinheiro, se autonomeou curadora de dança da instituição. Du se posiciona no centro do palco, luz branca e papel na mão. Inicia com uma fala. Um esclarecimento, uma declaração. “Eu gostaria de ter acreditado que foi uma falha técnica não ter saído no lançamento da programação essa homenagem aqui. Se estivéssemos em outro contexto, eu até acreditaria (…) Ela tem conhecimento da minha posição em relação às barbaridades e o retrocesso que esta gestão está fazendo”. Seu primeiro gesto é recebido com uma salva de palmas. Oxóssi já começou.
A dança segue com pássaros e armas. Filho de oxóssi como Denilto e também na busca do que essa força lhe representa na mitologia dos orixás, Du traz instrumentos que são ao mesmo tempo lança e escudo, enfrentamento e desvio. Como se carregasse em seu corpo o movimento do arco e flecha, sua dança se dá no recuo para o ataque, na ameaça para a sedução, na espreita para o bote, na resiliência para a precisão. Esses complementares habitam não só o espírito da dança, mas do próprio orixá, cuja virtude, além da caça, é justamente a luta pela sobrevivência. Não por acaso, é a mesma virtude que, pela atual conjuntura política, urge aos artistas e também nos une.
Para além do arquétipo do guerreiro de força bruta, Du sugere poeticamente uma abordagem desvelada porém estratégica. Saio de lá com uma discreta sensação de sagacidade, como se todos nós ali naquela sala compartilhássemos uma força afiada prestes a ser lançada. Compartilhamos com Denilto não só a vivência de tempos difíceis, mas mais importante, a vontade de transformação em gesto. Oxóssi é discurso além dos movimentos. É a presentificação de dois grandes artistas. É um manifesto que faz do oculto, denúncia e um convite para fazermos da inquietação, ação.

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