2019, Brasília / MID / Título em Suspensão / Homem Torto

Brasília 2019

Criticas Título em Suspensão e Homem Torto / Brasília, 2019

“Criador japonês lotou Teatro Galpão no segundo dia do Movimento Internacional de Dança

Sérgio Maggio e Gláucia Chaves

Estático em uma das extremidades do Teatro Galpão do Espaço Cultura Renato Russo, Eduardo Fukushima viu uma plateia se espremer para assistir ao espetáculo Homem Torto. Enfileiradas num formato de corredor, as cadeiras não foram suficientes para as 176 pessoas que formaram filas para apreciar o segundo trabalho do criador paulistano. Entre o público, estavam as principais coreógrafas do Distrito Federal, a exemplo de Marcia Duarte, Lenora Lobo e Gisele Santoro. “Por meio da cultura, milhões de problemas nossos são sanados. Cultura é o mais importante, o que define uma nação”, comemorou Gisele, criadora do tradicional Seminário Internacional de Dança.

Aplaudidíssimo ao final da apresentação, Fukushima não escondeu a felicidade em estar em Brasília. “É um prazer ficar diante desse público, muita gente assistindo à dança. O que mostra que o MID é bem especial. Vida longa a esse festival”, comemorou o bailarino e coreógrafo cuja pesquisa em solos de dança é elogiada mundo afora.

Com dois trabalhos que tocam poeticamente no homem-corpo contemporâneo, Fukushima deixou impressões e desejos numa plateia que não hesitou em enfrentar os desafios propostos pelo artista. Numa brecha de trabalho, Fukushima conversou com o MID:

MID – Dois trabalhos seus abriram a edição de 2019. Como é participar do festival que tem em sua plataforma um diálogo intenso com o público?

Fukushima – É sempre uma responsabilidade participar de aberturas de festivais e me sinto honrado de abrir o MID de 2019. Homem Torto já abriu alguns festivais em sua história de apresentações. O Título em Suspensão vai ser a primeira vez e penso que pode ser interessante, pois é um trabalho que gera silêncio e reflexão para quem assisti. Ambos os trabalhos não são em palco Italiano e coloca o público em desafio desde o princípio. É sempre uma busca pra nós artistas ampliar o diálogo com público e gerar diferentes perspectivas de linguagem.

MID – Homem Torto e Título em Suspensão são trabalhos que formam um painel sobre a sua pesquisa em solo em dança. O que você destacaria da sua pesquisa no diálogo entre essas duas obras?

Fukushima – Homem Torto já tem quase sete anos de existência e apresentações. Título em Suspensão quase quatro anos. São trabalhos que venho lapidando por muitos anos e refletem minha visão de mundo e quase que a metade da minha trajetória como dançarino e criador. Ambos os trabalhos representam existências frágeis, porém fortes. Existências em luta e em luto também. Homem Torto luta para permanecer em pé e, Título em Suspensão é como se fosse um conto de um homem que pode ser um bruxo, um guerreiro derrotado, um morador de rua ou um homem pré-histórico que não consegue sair do chão. São trabalhos bem distintos entre si mas seguem princípios de técnicas corporais chinesas e japonesas aliadas com diversas técnicas de dança que passei durante 15 anos como dançarino. Ambos os trabalhos são eu, muitos “eus” e existências que me atravessam.”

Título em Suspensão / Release

Texto de Danilo Castro para Rodolphe Alexis ( compositor musical de Título em Suspensão

“Movimento (in)visível do som

Brasília, 18 de abril de 2018

Rodolphe Alexis,

Resolvi escrever-lhe esta carta após ter assistido ao Título em Suspensão, solo de Eduardo Fukushima, que abriu o Movimento Internacional de Dança (MID) 2019. Segurar na mão a sua composição musical e operação de som, como se fossem uma pedra dentre outras menores que escorreram entre meus dedos, parece-me mais honesto. O que soa talvez destoante diante da tendência escrota que temos (público, artistas, críticos e críticas) de hierarquizar elementos nas linguagens da cena, evidenciando aquilo que a normatividade induz a tratar como mais importante: o diretor.

Porém, é dessas rédeas que fujo quando pratico meu ofício (meta) crítico. Como essa é a primeira das cartas que escrevo ao MID, tenho que lhe apresentar uma prática que carrego comigo intitulada de “desnudamento”. Consiste basicamente em deixar escorrer pela ponta dos dedos aquilo que me atravessa a partir do afeto, quando me deparo com uma obra cênica – não no sentido egóico, mas por meio de uma subjetividade assumida, que trata a percepção e a memória como fatores relevantes para exercer a crítica. 

Daí preciso me debruçar sobre a presença do som na minha vida de “coda” (child of deaf adults), que pode ser traduzida por “filho de pai e mãe surdos”. A responsabilidade de um “coda” é ser os ouvidos dos pais ao longo de uma vida, como se fosse uma missão inerente à própria existência. Esse lugar que ocupo no mundo me fez sentir a paisagem sonora que você criou como o elemento de impacto e presença viva na obra de Fukushima. Coincidentemente, “coda” também é o nome atribuído a um código secular de partituras musicais – sinaliza início ou fim.

Seu som em suspensão se expande, comprime-se, acalanta, oprime, convida, oscila entre delicadezas, fluidez e rupturas num movimento instigante e antiteticamente visual. Até porque observar o comportamento do público naquela enorme arena vazia do Teatro Galpão, do Espaço Cultural Renato Russo, era também observar a mim mesmo. Em tempos de superabundância imagética típica do século 21, no qual somos bombardeados de signos e cores em alta velocidade, absorver a experiência de ouvi-lo em meio à calma respiratória de Fukushima é romper com os limites de uma tradição.

O homem pré-histórico, em solidão, propondo dois paus e uma pedra como ignição do movimento diluiu-se em meio a sua vibração, Rodolphe, que provoca zonas de maior e menor compressão de partículas de ar, originando uma onda não somente sonora, mas quase visível aos nossos olhos – esse foi o movimento de dança que me atravessou. O solista, que dança sua “não-dança” aos que se sentem esquecidos e derrotados, tornou-se estranhamente invisível, talvez pouco comunicável – ainda que estivesse como epicentro do desabamento sonoro que presenciamos. Título em Suspensão apresenta o Som como corpo que dança.
Em assentamento,”

Danilo Castro*

*Danilo Castro é ator, graduado em Artes Cênicas (IFCE); jornalista, graduado em Comunicação (UFC), mestre em artes cênicas (UnB) e autor do blog de críticas (www.odanilocastro.blogspot.com). 

 

Texto de Isabela Andrade sobre o Título em Suspensão

“A solidão passa devagar

Isabella Andrade*

A apresentação Título em Suspensão, de Eduardo Fukushima, despertou-me sensações opostas no primeiro dia do MID. Se por um lado me vi incomodada com o distanciamento que a coreografia lenta, mínima e experimental poderia causar no público, por outro, vi boa parte dos espectadores prestar atenção de maneira fixa e ativa. O solo incomoda. É repetitivo, investe em um estado de não dança e mínimo movimento.

A ideia por trás da coreografia inusitada parece ser uma completa solidão. O figurino lembra um homem de rua e, no palco, Fukushima mostra a lentidão dos que vivem entre dias igualmente lentos. Nesse ponto, a apresentação me toca. Sinto-me momentaneamente imersa no abandono do palco, nos rolamentos repetitivos e quase performáticos de um homem só.

Título em Suspensão se propõe a ser uma dança para os que se sentem esquecidos, derrotados. Consigo acessar o experimento e posso sentir a invisibilidade do homem que se esconde para representar tantos homens no lugar de um. Fukushima prende minha atenção em diversos momentos. E, ao mesmo tempo, perde a relação que construo em momentos de extrema lentidão. E não era essa a intenção? Por que motivo a vagarosidade das coisas nos incomoda tanto?

Constantemente me pergunto se o público também teve a oportunidade de submergir ou se a proposta se manteve distante em excesso. Ainda assim, sei que a criação artística vive dessa maneira. Inúmeros olhares, inúmeras relações. Consigo sentir a solidão proposta. No início da performance, com o bailarino em cena, o público entra, sorri, conversava e se movimenta como se nada ou ninguém estivesse presente.

Ao fim da coreografia, levantamos um a um para sair do galpão. Lentamente, desistimos de observar a completa falta de novidade. No palco, um homem sentado observa com estranha fixação a pedra que acabara de cuspir. O público, já cansado de manter o olhar disposto, deixa de observar.  Logo, o performer se mostra tão invisível quanto os homens que busca retratar. A criação tem dessas coisas.”

* Isabella de Andrade é jornalista, atriz e escritora. Graduada em Comunicação Social e Artes Cênicas pela Universidade de Brasília, foi repórter de cultura por três anos no Correio Braziliense e arte-educadora no CCBB. Tem dois livros publicados e é idealizadora do projeto cultural www.ociclorama.com.

Homem Torto / Release

Texto de Danilo Castro para Eduardo Fukushima

“Como nascem as borboletas

Brasília, 19 de abril de 2019

Fukushima,

Como um vagabundo que flana descompromissado, mais uma vez vivi uma experiência assinada por você no Movimento Internacional de Dança (MID), na mesma ampla sala vazia do Teatro Galpão, no Espaço Cultural Renato Russo. Se ontem, com o seu Título em Suspensão, estive pouco atravessado por sua presença – quem sabe devido a uma paisagem sonora que pousou sobre você. Hoje, com o seu Homem Torto, inflei-me do modo com seu corpo se expandiu na arena.

O livro Letters sur la Danse, do professor e bailarino francês Jean-Georges Noverre (1727-1810), veio a público em 1760. Ele estava no auge da carreira. O bailarino mineiro Lucas Pierre (1985), que trabalhou na companhia da coreógrafa Débora Colker, disse-me certa vez que a terceira década de um bailarino é considerada um período onde há maturidade técnica e física para a execução dos movimentos com primazia.

Eis que você vive a plenitude de Noverre e Pierre. Tanto que seu corpo produz o poder magnético de atração e repulsão instigantes na maneira como exerce seu ofício em cena. Mas de que movimentos estamos falando? Certamente não é do plié, jeté ou grand battement. Ou quem sabe é justamente da desconstrução deles, envoltos pela respiração ofegante e pelos grunhidos que reverberam pelos seus membros.

Noverre também escrevia cartas-críticas questionando a rigidez imposta pelo balé tradicional. Ele dava aulas na Académie Royale de Musique et Danse, em Paris. Era nesse espaço onde ele atuava como tutor e artista, levando-o a conclusões que o fizeram acreditar em novas formas de comunicação por meio de um balé mais livre, baseado na sensibilidade dos intérpretes para além da normatividade técnica. Sua obra propôs uma espécie de “reforma” em noções rigorosas do balé.


Talvez seja essa a ponte responsável por levar o público para mais perto de seu solo, que pendula entre um passarela envolta de gente curiosa para ver o seu corpo disforme negando a simetria das partituras físicas que as danças clássicas exigem. E, dessa vez, a plástica sonora de Tom Monteiro (composição de som) pareceu-me dançar com você num casamento esguio, desequilibrado e cheio de rupturas – somado ao arenoso barulho da chuva que desabava lá fora. E é nisso que está o vigor de sua obra, como uma borboleta que tenta alçar voo, ainda desengonçada, logo após sair do casulo e esticar pela primeira vez as asas aos ventos.

O livro A Dança Possível, da cearense Rosa Primo, traz uma abordagem sociológica e antropológica da dança cênica no Ceará, problematizando-a nos dias atuais a partir de contextos anteriores. Para ela, a rigidez do balé clássico muitas vezes refletia argumentos de opressão e conservadorismo. E é disso que precisamos fugir, ainda mais em tempos de exacerbação do ódio, alienação de corpos e mentes; e aniquilamento das sensibilidades que tanto vêm adoecendo o estado psico-político no Brasil.”

Com respeito,

Danilo Castro*

*Danilo Castro é ator, graduado em Artes Cênicas (IFCE); jornalista, graduado em Comunicação (UFC), mestre em Artes cênicas (UnB) e autor do blog de críticas (www.odanilocastro.blogspot.com). 

 

 

Brasilia 2019 espaço cultural renato russo

 

20/4 sábado

Oficina de “Introdução a prática de respiração chinesa” com
Eduardo Fukushima (Brasil)

9h às 11h | Espaço Cultural Renato Russo I 20 vagas >> Selecionados <<

Por meio do compartilhamento de exercícios de respiração do Tai chi Dowing, princípios como meditação em fluxo, entendimento da coluna, automassagem, ativação e consciência do Chi servirão como ferramentas para o processo criativo

Eduardo Fukushima

Faz parte da comunidade tradicional de Tai Chi Dowing de Taiwan. Coreógrafo, dançarino e professor formado em comunicação das artes do corpo pela PUC-SP, tem em seu repertório cinco solos criados entre 2008 e 2018 . oficinas

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